Gente Que Some
- Bruno César Vieira

- 22 de set. de 2025
- 2 min de leitura
Dias desses tentei me reaproximar de uma ex-colega. Ela não estava tão aberta quanto eu, mas conversamos. Fiquei chocado quando me contou que o Teco tinha sumido — negão gente boa, altas ideias. Família e amigos preocupados: a última notícia dizia que tinha sido visto no Rio de Janeiro.
Com saudade, minha amiga dizia: “Ele sempre foi doidão. Muita coisa guardada, né? Ele sempre teve suas questões.”
Eu tive um tio desaparecido. Meu pai conta que veio morar em SP com ele nos anos 80. Em 1992 tinha um terreno em Campinas e, dali, ninguém mais teve notícias. Mandamos até cartinha pro Gugu — sem respostas.
Meu pai dizia que tem gente que quer sumir, e quem não quer ser encontrado, nem adianta procurar.
Uns anos atrás o encontramos num asilo com começo de demência. Ele consertava rádio, TV e eletrônicos. Era orgulhoso disso. Cara comprida, de índio velho; cabelo liso, branquíssimo e sempre penteado. Falava pouco, parecia triste — olhar vazio, cheio de mágoas, lembranças e amores. Ele nunca casou, não teve filhos. Um homem duro; não podia ser fraco.
Eu entendo o peso dessa bagagem, cheia de questões. Algumas a gente responde; outras a gente guarda no peito e mata a sede só quando chorar um pouco dessa mágoa.
Meu tio faleceu sozinho, mas eu me lembro dos seus olhos, cheios de histórias esquecidas, apagadas. Meu pai conta dos dias que moraram juntos — seu tio tinha suas questões.
Minha mãe, sempre poética, disse que no dia da morte dele estava num ponto de ônibus quando chegou um jovem puxando assunto. O moleque era mineiro, camisa branca e calça de alfaiataria. Tinha acabado de chegar em São Paulo só com uma mochila e já tinha conseguido um emprego. Estava empolgado; dizia estar na frente de uma nova página em branco. Ninguém perguntou o que ele deixava pra trás.
Dona Maria achou o encontro simbólico. Disse ter visto um anjo. Me despedi.