O Futuro é Preto
- Bruno César Vieira
- 21 de mai de 2020
- 2 min de leitura
Atualizado: 8 de jan
A ficção científica é branca.
Entre cartazes de filmes americanos e livros do Flash Gordon, vemos homens brancos conquistando e colonizando o espaço e seus mistérios. Peles negras são substituídas por alienígenas bárbaros verdes, azuis e vermelhos, enquanto a pele negra é apagada, invisibilizada, assim como a branquitude o faz no mundo real.
Nos futuros distópicos da ficção científica, dominados por corporações e regimes autoritários, a humanidade vive em um mundo cinza. A exploração espacial, muitas vezes romantizada, revela-se como uma nova fronteira para a perpetuação do colonialismo e do capitalismo, onde as minorias marginalizadas continuam invisíveis e oprimidas.

Mas a grande realidade é que já vivemos nessa tal de Distopia. Em uma máquina do tempo, não existe nada pra nós além de só imaginar o futuro, e sorrir. O que vocês chamam de apocalipse, é o passado para África. Enquanto nossa história foi brutalmente descarrilhada de seus trilhos naturais de desenvolvimento. Sequestrados e violentados em seus berços natais, e levados para o novo mundo.
MAAFA, o grande desastre.
nos privaram do privilégio de sonhar. De nos representar... Falaram dos nossos cabelos, enquanto roubavam nossas músicas, ritos e a esperança de um futuro sem submissão.
Não! Não quero protagonistas negros com sabres de luz ou lutando contra robôs, nem negros nas suas revoluções patriarcais.
Quero a volta das minhas matrizes. Dos meus saberes. Quero receber os créditos que nos foram roubados. Quero a mão das mães trançando meus cabelos enquanto planejo um futuro sem as manchetes e o Estado nos impõem.
Quero o futuro glorioso que nos tiraram. Enforcar os grandes brancos com as linhas que traçaram em nossos mapas. Afoga-los com o sangue e as lágrimas que salgaram o Atlântico e as rotas alteradas dos tubarões.

Mas há de chegar o dia em que pirâmides prateadas gigantescas pairarão sobre os céus, e dali surgirá nós, seres de pura energia, inexplicável e subjetivo, onde cada um verá o mais profundo negrume da imensidão da nossas almas. Imagem e reflexo.
Talvez eu seja João Pedro, Sun Rá ou Mariele. Meus cabelos formam imponentes coroas e vestes tribais, banhadas de ouro e prata, escorrendo pelas curvas de todos os nossos corpos, por fim, recompensados e descansados. Impomos então:
"Povos de África e Diáspora, vocês já sofreram muito nesse mundo. Venham a nós curar nossas dores, para voltarmos a tomar as rédeas do mundo que nos foi arrancado."
Somos nós então, os filhos dos afronautas e descendentes das matriarcas da Etiópia. Conquistamos o espaço com nossa pele que reluz.
